Dia de Oração pela Vida Consagrada Contemplativa

É objetivo central deste dia o reconhecimento do seu rico património espiritual, a estima e a gratidão pelo que significam para a Igreja e para o mundo. Outro objetivo é o de dar a conhecer a vocação contemplativa, e suscitar respostas generosas ao chamamento que o Senhor continua a fazer.

Para reflexão sugere-se a resposta dada pelo Papa Francisco à primeira questão de um diálogo recente com os Religiosos e Religiosas da Diocese de Roma (16 de maio de 2015), em que foi desafiado a refletir sobre o equilíbrio, a que chamará tensão, «entre escondimento e visibilidade, clausura e compromisso na vida diocesana, silêncio orante e palavra que anuncia».

Assim, sugere-se que as comunidades cristãs desafiem os seus jovens a passar um Dia com… uma das três comunidades monásticas presentes na diocese:

Monjas Beneditinas - Mosteiro de Santa Escolástica (Roriz)

Monges Beneditinos - Mosteiro de São Bento de Singeverga

Monjas Carmelitas Descalças - Mosteiro do Carmelo do Porto

 ( Bande, Carvalhosa)

ENCONTRO DO PAPA FRANCISCO 
COM OS RELIGIOSOS E AS RELIGIOSAS DE ROMA

Sala Paulo VI
Sábado, 16 de Maio de 2015

A primeira pergunta foi feita pela irmã Fulvia Sieni, agostiniana do mosteiro dos Santos Quatro Coroados: «Os mosteiros vivem um delicado equilíbrio entre escondimento e visibilidade, clausura e compromisso na vida diocesana, silêncio orante e palavra que anuncia. Como pode um mosteiro urbano enriquecer e deixar-se enriquecer pela vida espiritual da diocese e pelas outras formas de vida consagrada, mantendo-se firme nas suas prerrogativas monásticas?».

Papa Francisco:

Tu falas de um equilíbrio delicado entre escondimento e visibilidade. Eu digo mais: uma tensão entre escondimento e visibilidade. A vocação monástica é esta tensão, tensão no sentido vital, tensão de fidelidade. O equilíbrio pode ser entendido como «balançamos, igual deste lado como daquele...». Ao contrário, a tensão é a chamada de Deus à vida escondida e a chamada de Deus a tornar-se visível de um certo modo. Mas como deve ser esta visibilidade e como deve ser esta vida escondida? Esta é a tensão que viveis na vossa alma. Esta é a vossa vocação: sois mulheres «em tensão»: em tensão entre esta atitude de procurar o Senhor e esconder-se no Senhor, e esta chamada a dar um sinal. Os muros do mosteiro não são suficientes para dar este sinal. Recebi uma carta, há 6-7 meses, de uma irmã de clausura que tinha começado a trabalhar com os pobres, na portaria; e depois saiu para trabalhar com os pobres; e foi sempre em frente cada vez mais, e no final disse: «A minha clausura é o mundo». Eu respondi-lhe: «Diz-me, querida, tu tens a grade portátil?». Isto é um erro.

Outro erro é não querer ouvir nem ver nada. «Padre, as notícias podem entrar no mosteiro?». Devem! Mas não as notícias — digamos — dos meios de comunicação «intriguista»; as notícias sobre o que acontece no mundo, as notícias — por exemplo — das guerras, das doenças, de quanto sofrem as pessoas. Por isso, uma das coisas que nunca deveis descuidar é o tempo para ouvir as pessoas! Até nas horas de contemplação, de silêncio... Alguns mosteiros têm a secretaria telefónica e o povo telefona, pede oração por isto, por aquilo: esta ligação com o mundo é importante! Nalguns mosteiros vê-se o telejornal; não sei, isto é um discernimento de cada mosteiro, segundo a regra. Outros recebem o jornal, lê-se; noutros faz-se esta ligação de outro modo. Mas é sempre importante uma ligação com o mundo: saber o que acontece. Porque a vossa vocação não é um refúgio; é ir precisamente ao campo de batalha, é luta, é bater à porta do coração do Senhor por aquela cidade. É como Moisés que erguia as mãos ao alto, rezando, enquanto o povo combatia (cf. Êx 17, 8-13).

Vêm muitas graças do Senhor nesta tensão entre a vida escondida, a oração e ouvir as notícias das pessoas. Nisto a prudência, o discernimento, far-vos-á compreender de quanto tempo necessita uma coisa e de quanto necessita outra. Há também mosteiros que dedicam meia hora, uma hora por dia, a dar de comer a quantos o vêm pedir; e isto não é contra o escondimento em Deus. É um serviço; é um sorriso. O sorriso das monjas abre o coração! O sorriso das monjas alimenta mais do que o pão aqueles que vêm! Esta semana és tu que por meia hora dás de comer aos pobres que pedem até um pedaço de pão. Um faz isto, outro faz aquilo: esta semana és tu que sorris aos necessitados! Não vos esqueçais disto. A uma religiosa que não sabe sorrir falta alguma coisa.

Há problemas nos mosteiros, lutas — como em todas as famílias — pequenas lutas, um certo ciúme, isto e aquilo... E isto faz-nos compreender quanto sofrem as pessoas na família, as lutas nas famílias; quando marido e esposa discutem e quando há ciúmes; quando as famílias se separam... Quando também vós tendes este tipo de provações — há sempre coisas deste género — compreender que não é este o caminho a oferecer ao Senhor, procurando uma via de paz, dentro do mosteiro, para que o Senhor restabeleça a paz nas famílias, entre as pessoas.

«Diz-me, Padre, lemos muitas vezes que no mundo, na cidade, há a corrupção; também nos mosteiros pode haver corrupção?». Sim, quando se perde a memória. Quando se perde a memória! A memória da vocação, do primeiro encontro com Deus, do carisma que fundou o mosteiro. Quando se perde esta memória e a alma começa a ser mundana, pensa coisas mundanas e perde-se aquele zelo da oração e da intercessão pelo povo. Tu disseste uma palavra muito bonita: «O mosteiro está presente na cidade, Deus está na cidade e nós sentimos o barulho da cidade». Aquele barulho, aqueles sons de vida, dos problemas, de muitas pessoas que vão e vêm do trabalho, que pensam estas coisas, que amam...; todos estes rumores vos devem estimular a lutar com Deus, com a mesma coragem de Moisés. Recorda-te de quando Moisés estava triste porque o povo percorria um caminho errado. O Senhor perdeu a paciência e disse a Moisés: «Eu destruirei este povo! Mas tu fica tranquilo, serás chefe de outro povo». Que disse Moisés? O que disse? «Não! Se tu destruíres este povo, destróis-me também a mim!» (cf. Êx 32, 9-14). Este vínculo com o teu povo é a cidade. Dizer ao Senhor: «Esta é a minha cidade, é o meu povo. São os meus irmãos e as minhas irmãs». Isto significa dar a vida pelo povo. Este equilíbrio delicado, esta tensão delicada significa tudo isto.

Não sei como fazeis vós agostinianas dos Santos Quatro: há a possibilidade de receber pessoas no falatório... Quantas grades tendes? Quatro ou cinco? Ou já não tendes grades... É verdade que se pode escorregar nalgumas imprudências, dedicar muito tempo a falar — santa Teresa diz tantas coisas sobre isto — mas ver a vossa alegria, ver a promessa da oração, da intercessão, faz muito bem às pessoas! E vós, depois de uma meia hora de conversa, voltais ao Senhor. Isto é muito importante, muito! Porque a clausura tem sempre necessidade desta ligação humana. Isto é muito importante.

A questão final é: como pode um mosteiro enriquecer-se e deixar-se enriquecer com a vida espiritual da diocese e das outras formas de vida consagrada, mantendo-se firme nas suas prerrogativas monásticas? Sim, a diocese: rezar pelo bispo, pelos bispos auxiliares e pelos sacerdotes. Há bons confessores em toda a parte! Alguns menos bons... Mas há muitos que são bons! Sei que há sacerdotes que vão aos mosteiros para ouvir as monjas, e sois muito positivas para os sacerdotes. Rezai pelos sacerdotes. Neste equilíbrio delicado, nesta tensão delicada há também a oração pelos sacerdotes. Pensai em santa Teresa do Menino Jesus... Rezai pelos sacerdotes, mas ouvi-os também, ouvi-os quando vos visitam, durante aqueles minutos no falatório. Ouvi-os. Eu conheço tantos, muitos sacerdotes que — permiti a palavra — desabafam falando com uma monja de clausura. E depois o sorriso, a palavrinha e a segurança da oração da irmã renovam-nos e voltam para a paróquia felizes. Não sei se respondi...

 


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Papa Francisco
27 Maio 2015